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Tamara Caetano
A palavra doação, vinda do latim donatius, significa dar um presente. E essa foi exatamente a sensação vivida pela Biblioteca Comunitária Vila dos Criadores e pela comunidade de mesmo nome, na última quarta-feira (16), ao receber uma remessa especial de livros da Campanha Sankofa 2025, fruto de uma ação promovida pela empresa Transpetro.
Mais do que material físico, a Biblioteca recebeu conhecimento, afeto e sentimento de pertencimento. A entrega dos livros foi celebrada com um encontro simbólico entre dois importantes projetos da Organização Social Civil Concidadania – Consciência pela Cidadania, que atuam no território: a própria Biblioteca Comunitária Vila dos Criadores e o Protagonismo Infantojuvenil em Movimento. Idosos, crianças, adolescentes e educadores participaram de atividades de leitura, troca de saberes e fortalecimento de vínculos com o território.
Ambas as iniciativas estão alinhadas às diretrizes dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU — um compromisso global assumido por diversos países em nome de um planeta mais justo, igualitário e sustentável. A ação contribui especialmente para os ODS 4 (Educação de Qualidade), ODS 10 (Redução das Desigualdades), ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes) e ODS 18 (Igualdade Étnico-Racial).
Ao ampliar o acervo da biblioteca com títulos diversos, muitos voltados à valorização da cultura negra, dos direitos humanos e da literatura infantojuvenil de qualidade, a ação conjunta com a Campanha Sankofa 2025 reafirma o papel transformador da leitura nas comunidades.
Ofélia Garcia, assistente social e educadora responsável pelas oficinas de Alfabetização e Leitura na Biblioteca Comunitária ressalta a importância de iniciativas como essa dentro de regiões como a Vila dos Criadores. “O encontro dos moradores da Vilinha com os livros doados pela ação social da Transpetro foi emocionante. Em um lugar onde faltam itens básicos, o livro se torna um aliado poderoso de resistência e esperança”, finaliza Ofélia.
O fortalecimento da Biblioteca Comunitária Vila dos Criadores já vem ultrapassando os limites da comunidade e foi através dessa crescente que a Transpetro conheceu o projeto, Mateus Moisés, profissional de responsabilidade social da Transpetro explica porque a empresa decidiu se mobilizar em prol a Biblioteca. “ Eu conheci o projeto e o contexto aqui da associação no comitê comunitário da unidade de negócios da Bacia de Santos da Petrobrás e conheci a Danúbia. Percebi que tinha uma biblioteca muito interessante, a gente conversou sobre os projetos que aconteciam aqui quando fizemos as visitas comunitárias pela primeira vez e quando surgiu a campanha do Sankofa aqui na região dos terminais de Santos e Cubatão, me veio em mente que esse seria o lugar ideal para receber esses livros”.
Durante a entrega, o poder da palavra se fez presente não apenas nos livros doados, mas também na escuta e na leitura compartilhada. Trechos do livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, e contos afroindígenas foram lidos em voz alta pela educadora Cynthia Panca. A escolha das obras ressaltou a importância da oralidade, por meio de rodas de leitura, da ancestralidade e da literatura como ferramentas de consciência e resistência — especialmente em territórios como o da Vila dos Criadores. A ação foi ainda mais enriquecedora pela interação da educadora Carmelita Danúbia com o público presente, que aprendeu e participou ao som de duas músicas de capoeira, reforçando os laços culturais e a ancestralidade presente no encontro.
Sankofa
O nome Sankofa é inspirado no conceito africano Sankofa, que significa “voltar para buscar aquilo que foi deixado para trás” — um chamado à reconexão com as origens, com a história e com o saber ancestral. Eliane Machado, integrante do grupo Ubuntu, que promove a campanha de arrecadação de livros Sankofa, esteve presente na entrega e explicou a origem e os propósitos da iniciativa:
“O grupo de afinidade étnico-racial Sankofa surgiu por uma iniciativa de empregados negros da Transpetro, e nos reunimos e dialogamos semanalmente sobre questões étnico-raciais, tanto na sociedade quanto dentro da empresa.”
Essa ação reafirma como a palavra, quando compartilhada em comunidade, tem o poder de transformar realidades e fortalecer identidades. É na união entre saberes, histórias e vozes que a Vila dos Criadores constrói sua resistência e projeta um futuro de esperança.